O esplendor da "Belle Époque"

As origens do Majestic remontam, com efeito, a 17 dezembro de 1921 quando foi constituída, por um conjunto de comerciantes do Porto, a Sociedade por Quotas Café Elite Limitada que, nesse mesmo dia, assina um contrato de aluguer do rés-do-chão do prédio sito na Rua de Stª Catarina nºs 110 ao 116 “destinado à montagem de um café, cervejaria”. Contrato este que teria início a 1 de Junho de 1922.

Contudo, foi só quase um ano depois, a 2 de dezembro de 1922, que teve lugar a inauguração ao público do “feerico e deslumbrante conjunto do Majestic Café” de cuja autoria “(...) architectonica encarregou-se o architecto snr. José Pinto de Oliveira (...)".
*in: Commércio do Porto, “Os grandes estabelecimentos do Porto. Inauguração do Majestic-Café”, 2 de dezembro de 1922.
 
Mantendo desde a sua abertura o seu nome, Majestic Café, a 4 de dezembro de 1924, a Sociedade Café Elite Lda sua proprietária é substituída pela sociedade Majestic Café Lda. 
 
Em 30 de Julho de 1925, deu entrada na Câmara Municipal do Porto um pedido para “construção de um Bar (...) com frente para a Rua de Passos Manuel, onde seja posto à venda Vinho do Porto. Para isso escolheu-se o estilo regional da nossa arquitetura” **, projeto este, assinado pelo arquiteto João Queiroz.
 
**in: Requerimento para licenciamento de obras, interposto pela empresa Majestic Café Lda e assinado pelo arquiteto João Queiroz, em 30 de julho de 1925. Carimbo de licença nº 1319 de 27 de setembro de 1925. Arquivo de Obras da Câmara Municipal do Porto.
 
Mais do que um café, o Majestic conta a história do Porto. O Porto dos anos vinte, das tertúlias políticas e do debate de ideias. O Porto da "Bélle Époque", dos escritores e dos artistas. Situado na rua de Santa Catarina, avenida pedonal de comércio e passeio da sociedade de então e de agora, iluminava o passeio com a sua decoração Arte Nova.
 
Lá dentro, inalava-se o perfume dos bancos aveludados e das madeiras envernizadas, confundindo-se os cinco sentidos nos tetos de gesso decorado e abundante espelharia em cristal flamengo. Mármore e metal ligavam-se com requinte inigualável. Nas traseiras a natureza espreitava através do jardim de Inverno, que ligava a rua de Santa Catarina à rua de Passos Manuel.

Nesse dia já distante, o dia da inauguração ficou marcado na cidade. Foram muitos os que se dirigiram para esse ponto da cidade para conhecerem o novo edifício que se incrustava na paisagem arquitetónica portuense. Agradou a intelectuais e boémios mas também às senhoras da melhor sociedade que, em passeio, ali tomavam o chá ou um sorvete.

O café teve honras e distinções e recebeu uma visita distinta, o piloto aviador, e mais tarde almirante, Gago Coutinho (que consta sempre acompanhado de belíssimas mulheres), acabado de chegar de mais uma arriscada jornada à ilha da Madeira. Tão agradavelmente surpreendido ficou com o esplendor do novo estabelecimento que lá regressou várias vezes para poder contemplar a beleza de todos os pormenores que o compunham, uma das quais na companhia da famosa atriz Beatriz Costa.
 
glamour e a elite cultural parisiense eram referências para a cultura portuguesa da altura, tendo influído a escolha do nome – Majestic – impregnado de charme "Belle Époque".
Neste espaço, passaram a convergir vultos intelectuais da cidade. José RégioTeixeira de PascoaesLeonardo Coimbra, entre outros, emprestaram à casa a literacia necessária para que sucedesse o aceso debate, entre figuras públicas e as que viriam a sê-lo, das questões políticas, sociais e filosóficas mais prementes.
Num lugar que é, por mérito próprio, arte, não poderiam faltar os que a constroem. Alunos e professores da Escola de Belas Artes do Porto, juntavam-se a artistas de nomeada, como Júlio Resende, para desbravar novos caminhos e motivações artísticas, propor ruturas, criticar formalismos, conceptualizar novas formas, ou simplesmente para ouvir o que se dizia então.
Em vários cafés do Porto sucedia o mesmo que no Majestic, uma intensa polarização social da cultura ao sabor do café ou do absinto escondido.

Nos anos 60 do século XX, coincidindo com um certo adormecimento forçado das manifestações culturais do País, o Café Majestic começa, ele próprio, a adormecer. É um declínio lento mas contínuo.

Este estado de degradação a que estava votado, cedo começa a ser percebido pelas forças vivas da cidade. Assim, em 31 de Agosto de 1981, é decretado Imóvel de Interesse Público. Dois anos depois, a nova gerência estuda a forma de devolver o café à cidade.

Entretanto, o tempo mostra a sua inexorabilidade, os anos de incúria transformaram o espaço num local sombrio. O Majestic e toda a história que as suas chávenas beberam, clamavam por reconhecimento.

Em 1992, 70 anos após a inauguração, é decidido devolver-lhe a vaidade justa de ser um dos mais belos cafés do Porto. A 15 de Julho de 1994 abre novamente as portas, foram precisos dois anos para lhe puxar o lustro. Quem lá entrar encontra agora exposições, eventos e mesmo um certo mediatismo - por vezes é palco televisivo.

O Café Majestic de traça ideada pelo arquiteto Jose Pinto de Oliveira, permanece ainda hoje como um dos mais belos e representativos exemplares de Arte Nova na cidade do Porto. O edifício, fundeado em 1916 no ângulo formado pelas ruas de Santa Catarina e Passos Manuel, previa, na memória descritiva da sua reconstrução, a existência de estabelecimentos virados para a rua pedonal.
A imponente fachada em mármore, dornada com aspetos vegetalistas de formas sinuosas, reflete o bom estilo decorativista da altura. Um trio de elegantes portadas marca a frontaria, limitada por uma secção retangular, rasgada em vidro. No topo um frontão coroa a composição com as iniciais do Majestic. Ladeiam-no duas representações de crianças que, divertidas, convidam o transeunte a entrar.

Dentro do estabelecimento, de planta retangular, reina a linguagem Arte Nova. A simetria curvilínea das molduras em madeira e os pormenores decorativos cativam a observação. Grandes espelhos riscados pela idade, intercalados por candeeiros em metal trabalhado, delimitam as paredes num inteligente jogo ótico de amplitude, que lhe dá uma dimensão maior que a real.
Esculturas em estuque, representando rostos humanos, figuras desnudas e florões, confirmam o gosto ondulante e sensual, enquanto duas linhas de bancos em couro gravado, substituindo os originais em veludo vermelho, criam, em termos de perspetiva, uma sensação de profundidade e elegante aconchego.

O recorte sinuoso dos caixilhos da espelharia, a luminosidade dos candeeiros, os detalhes em mármore e os bustos sorridentes que se estendem das paredes ao teto, conferem-lhe ambiência dourada e confortável, incitando ao repouso e à conversa amena. O Café Majestic emana uma atmosfera de luxo, requinte e bem-estar.

O pátio interior, construído em 1925, é um recanto de contornos delicados, com escada e balaustrada de pequenas dimensões, arquitetado como se de um jardim de Inverno se tratasse. Sob a direção do mestre Pedro Mendes da Silva, este espaço simboliza uma nova era do Café Majestic. A construção do bar e da ligação ao café por meio de uma escadaria, permitiu abrir uma nova frente, a da rua Passos Manuel, "...onde será posto à venda vinho do Porto. Para isso, escolheu-se o estilo regional da nossa arquitetura, não só para a construção do bar, mas também para a vedação do muro".
A nova fachada foi subsequentemente idealizada e executada seguindo moldes diferentes dos adotados para o interior. Se este é ao gosto internacional, o novo espaço, não o renegando apresenta um estilo mais rústico, manifestando o que mais tarde Raul Lino designou por casa portuguesa.
Nesse mesmo ano, o Majestic cumpre singularmente a função plural de satisfazer todos os desejos da clientela. Volta a chamar o arquiteto João Queiróz, agora para abrir uma modesta mas graciosa janela no muro remodelado, virada para a rua Passos Manuel, onde passará a vender tabaco e rapé à população. Um ano depois, em 1926, o espaço é ampliado e cedido à exploração da firma Tinoco & Irmãos, construindo uma "pequena cabina (…) para servir de tabacaria".

Auspícios de novos tempos e hábitos surgem em 1927, através da ampliação do bar com vista ao "serviço e fornecimento de cerveja para o terraço ali já existente". O espaço, como o vemos, apresenta-se evolutivo. De uma formulação mais depurada e arquitetural à entrada, motivada pelas raízes Beaux Arts do arquitecto, ao aproximarmo-nos do jardim passamos por um decorativismo colmatador das estruturas arquitetónicas, terminando no portal jónico de ligação ao exterior, com grandes volutas transparentes e sensuais, tipicamente Art Nouveau, insinuando as esculturas femininas que vislumbramos no exterior. Esse, verdejante e luminoso, serve atualmente para a dinamização de concertos durante o Verão, pelo que se tornou no terceiro centro cultural do Majestic, a rivalizar com o piano de cauda no interior e com as inúmeras exposições de pintura a acontecer no piso inferior, outrora votado ao jogo de bilhar.
Foi também neste ano de 1927 que, ainda sob a alçada da Sociedade Majestic Café, era inaugurado o Pavillon Majestic, uma cervejaria amovível, localizada em frente à Rua do Crasto, onde mais tarde esteve o Bar do Molhe e onde hoje em dia se encontra a Pizza Hut.

Sob a égide dos Barrias, em 1992, o café foi encerrado para a execução de um projeto de recuperação que ficou a cargo da arquiteta Teresa Mano Mendes Pacheco.
Em 1994, depois da substituição do pavimento interior e da reposição do mobiliário original, o Majestic foi reaberto. Fotografias encontradas por Fernando Barrias permitiram conservar a alma do local, transportando, com sensibilidade, um passado luminoso para o presente.

Os inúmeros prémios e o reconhecimento internacional - "Prémio Especial de Café Creme" (1999), "Medalha de Prata de Mérito Turístico" (2000), "Medalha de Prata de Mérito Municipal - Porto" (2006), "Certificado do Prémio Mercúrio - O melhor do Comércio na área das empresas na categoria Lojas com História" (2011) e "Medalha Municipal Mérito - Grau Ouro" (2011), classificado pelo site cityguides como o sexto café mais belo do mundo e o Certificado de Excelência da TripAdvisor - surgiram com naturalidade, devolvendo-lhe, finalmente, a justa notoriedade que, durante tantos anos, havia sido esquecida.

Nunca venho ao Porto sem dar ao menos um salto a este belo café Majestic, que não hesito em considerar como um dos que em toda a Europa melhor conservam a atmosfera dos começos do século e que, por isso mesmo, bem importa conservar, preservar, respeitar.


David Mourão Ferreira
09-01-1986



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